O folkeiro Yankovic
Março 7, 2008
Uma heresia deliciosa. Weirda Al Yankovic e sua paródia de Subterranean Homesick Blues.
Toda feita, pasmem, de palíndromos.
O preferido do colunista é “Lonely Tylenol”. E o seu?
Ainda sobre o Dylan
Março 7, 2008
Certas coisas tolhem o otimismo e a fé na raça humana. Como esse depoimento, de um “empresário” que esteve no show do Bob Dylan anteontem, recolhido por Jotabê Medeiros e publicado no Estadão de hoje (Dylan, craque em driblar expectativas, matéria que fecha o Caderno2):
“Agora ele vem com essa música barulhenta. Ele tem que se preocupar com quem vem ao show dele. (…) E não sou só eu que ficou frustrado. A turma de cinquentões que veio para ouvir a música dele teve que ouvir isso. Nós queremos o Dylan folk, não o roqueiro barulhento. Foi esse que eu paguei R$ 1 mil para ver. E tem mais: ele não cumprimentou o público. Não falou nem boa noite. Não olhou nem para a platéia. Esse não é o meu Dylan.”
Pois é, em uma coisa este senhor está certo. Esse não é o “seu Dylan”.
Ele não se importou se as pessoas estavam gostando de The Times They Are A-Changin’, no meio dos anos 60. Ele não podia se importar menos com a reação dos “puristas” (um baita dum eufemismo, acreditem) quando passou do violão para a guitarra elétrica, logo depois. E que bom que, quarenta anos depois, ele continua não se importando com quem pagou ou deixou de pagar mil reais para vê-lo e queria ouvir as músicas “da nossa época”. Que ótimo que ele só se importe com suas próprias convicções.
Afinal, ele é um artista, no melhor e mais pleno sentido que essa palavra pode ter. Pena que tem gente que nunca vai entender isso.
(Esse post teve a colaboração de Kátia Mello)
Notas sobre o bardo
Março 6, 2008
Muitos afazeres, e quem sofre é o blog, que fica meio abandonado. Mas já passa.
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Ontem foi noite de Bob Dylan. E foi incrível. Considerando o fato de que estávamos assistindo ao show de um verdadeiro deus, pode-se até cometer a heresia de fazer dois reparos: 1) ele tocou pouca guitarra e quase nada de gaita. Ficou mesmo no teclado; 2) Poucos clássicos no repertório.
Quem fala que ele não tem mais voz não tem idéia do que está dizendo.
Meu Deus do céu, que banda! Principalmente nas canções mais blueseiras.
Só a versão de Highway 61 Revisited já faleu cada centavo dos R$ 250 pagos por este colunista. Sem falar em Like a Rolling Stone e uma All Along the Watchtower de arrepiar.
Teve direito até a um Oscar em cima de um dos amplificadores.
Detalhe para a polidez do bardo, fazendo um phino “fica aí” quando uma garota com ares de maluquéte subiu no palco. E a pose, ao final? Atitude pura. As modelos do Fashion Week teriam muito a aprender com ele.
Lamentável a desorganização do Via Funchal e a (falta de) educação do público, digna de uma horda bestial de micareteiros.
Em suma, uma noite e tanto. A mais pura essência do rock estava ali, em pessoa. Sublime.
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É o cara, afinal, que fez isso aqui. Não tem nem o que dizer.
You can’t do that on videoclips anymore
Fevereiro 26, 2008
Muitos o amam, outros tantos o odeiam. Difícil mesmo é achar alguém indiferente a um dos criadores mais insanos da história do rock. Rock, jazz, clássico e qualquer coisa vagamente musical (ou ao menos para ele) – tudo cabia no som de Frank Vincent Zappa.
Álbuns como Uncle Meat (1969, trilha sonora do filme homônimo), One Size Fits All (1975) e Jazz From Hell (1986) são e sempre serão sinônimo de modernidade e ousadia.
Nunca é demais rever You Are What You Is, uma bela amostra do que podia sair da cabeça do bigodudo. Um dos maiores clipes de todos os tempos, sem a menor sombra de dúvida.
“Ah, aquele da abelhinha!” ou O breve vôo do Blind Melon
Fevereiro 21, 2008
Senhoras e senhores, que rufem as trombetas! O colunista tem o prazer de dar início a uma nova seção: One Hit Wonders. Com doses cavalares de nostalgia correndo pelas veias, é um espaço dedicado às bandas e artistas que ficaram para a história com apenas um hit. Mas são aqueles hits que, sabe-se lá como, muitas vezes conhecemos de cor. Enfim, que se abra o baú…
Para tanto, voltemos um pouco no tempo. Los Angeles, 1990. Enquanto gente como Nirvana e Mudhoney bombavam decibéis nas rádios, o cantor Shannon Hoon, natural de Lafayette, Indiana, juntava-se a outros quatro músicos magrelos e cabeludos para fazer shows em bares da cidade. Nascia ali o Blind Melon.
Após alguma repercussão local, a banda assinaria um contrato com a Capitol para o lançamento do primeiro disco, Blind Melon, que sairia em setembro de 1992. Um pouco antes, porém, um conterrâneo e velho amigo de Hoon o chama para participar de algumas músicas do álbum novo de sua banda. Nada de mais, se esse amigo não fosse Axl Rose, se a banda não fosse o Guns ‘N’ Roses e se o disco não fosse o Use Your Ilusion.
O flerte com o Guns trouxe os holofotes para o Blind Melon. O estouro nas paradas, porém, viria em 1993, com o single No Rain. A canção tocou exaustivamente pelo mundo afora, e a banda chegou a fazer shows de abertura nas turnês de Lenny Kravitz e Neil Young. Em 1994, duas indicações para o Grammy e uma participação no controverso festival Woodstock II.
Nem tudo, porém, eram flores. Hoon já tinha um longo e complicado histórico com drogas. O segundo disco, Soup, veio em setembro de 1995. Mas não houve tempo para nada. Hoon foi encontrado morto no dia 21 de outubro, vítima de overdose de cocaína. Era o fim. Em 1996 ainda sairia o álbum póstumo Nico (nome da filha de Hoon, que contava apenas 3 meses quando da morte do pai), com algum material inédito, demos e sobras de estúdio descartadas dos outros discos.
Os outros integrantes ressuscitaram a banda no ano passado, com novo vocalista, mas tudo leva a crer que é mais uma daquelas aventuras mediúnicas caça-níqueis. O público vai mesmo é para ouvir No Rain, de fato uma baita canção. E o clipe? Mais anos 90, impossível.
Os japoneses deles são melhores que os nossos…
Fevereiro 18, 2008
Eis o Tenori-On, o novo cuti-cuti da Yamaha. Design by Toshiro Iwai. Dá vontade de brincar um bocado, não?
Happy Valentine’s Day
Fevereiro 14, 2008
Caros leitores, com licença, por favor.
Esse post vai para a mulher mais linda do planeta.
Happy Valentine’s Day, Kat.
Sobre tocar com o coração
Fevereiro 12, 2008
Aproveitando o ensejo do post anterior, aqui vai um pequeno tesouro. Arcade Fire, tocando Neon Bible e Wake Up no Olympia, em Paris, em 19 de março de 2007.
É, literalmente, de arrepiar.
E ficam os voltos para que eles voltem logo pra cá; dessa vez, quem sabe, com uma estrutura decente.
Peligro queima o estoque. E que estoque
Fevereiro 12, 2008
Antes que venham chamar o colunista de jabazeiro, saibam que esse post é na verdade um serviço de utilidade pública; tarefa, aliás, que deveria ser cumprida por qualquer jornalista que se preze o mínimo. Como é de conhecimento até do mundo mineral que a dita “grande imprensa” só escreve sobre os discos que chegam em suas mesas, a idéia de “reportagem” vai sabe-se lá pra onde…
Dito isto, a dica quente é: a Peligro está fazendo uma queima de estoque que honra uma tão, digamos, flamejante metáfora. Coletânea da DFA, tripla, por R$ 35. TV On The Radio, Maher Shalal Hash Baz, Psapp, Arcade Fire, Jens Lenkman, Battles e mais uma porrada de coisas bacanas pela bagatela de R$ 20 cada.
Vale a pena. Passe lá. Ou toda quinta, no Milo, com discotecagem de responsa.
Bob Dylan é meu pastor e nada me faltará
Fevereiro 12, 2008
Pois é, caros leitores. Como os roteiristas não saem da greve, este colunista vai arrogar para si a tarefa de distribuir alguns Oscar. O primeiro é o Oscar de Tacanhice Mental de Cabeças Supostamente Pensantes do Show Business Nacional. E a Academia foi unânime em outorgar o prêmio para o gênio que resolveu fazer o show do Bob Dylan no Via Funchal. Sem pista, só com mesas. Com preços que vão de “Ultrajante” (R$ 250, por um lugar no fundo, na lateral) a “Crime Inafiançável” (R$ 900. Isso mesmo. No-ve-cen-tos).
A título de comparação, o show do Rio será no Rioarena (um dos projetos faraônicos do Pan que consumiram um polpudo montante dos cofres públicos), e sai por entre R$ 150 e 360. E em Buenos Aires? Alguém com um mínimo de sensibilidade para enxergar o óbvio marcou o show para o José Amalfitani – o popular El Fortín de Liniers–, estádio do Vélez Sarsfield. Estádio. Os ingressos, assim, saem por entre R$ 41 (não, não falta nenhum zero) e 210.
Para vê-lo aqui, em suma, só sendo podre de rico, trouxa ou fanático. Como ninguém que se disponha a ir a um show do mestre pode ser chamado de trouxa, é em nome desse fanatismo que ainda assim nos dispomos a correr o risco de dar entrada no HC com uma overdose de miojo simplesmente para vê-lo ao vivo. Afinal, é o Bob Dylan.
Este colunista pode ser chamado de podre por diversos motivos – nenhum deles relacionado ao dinheiro sob o colchão. A perspectiva do estilo de vida espartano dos próximos meses não impede, porém, que seus olhos brilhem ao contemplar o ingresso. Muito menos segura as lágrimas ao assistir às imagens reunidas no filme Don’t Look Back, de D.A. Pennebaker.
Lançado pela Sony BMG no finalzinho do ano passado, o filme acompanha a segunda turnê de Dylan pela Inglaterra, em 1965. Época em que as galáxias estavam alinhadas de tal forma que a Inglaterra era o centro do universo. Em uma palavra? Tirem as crianças da sala: é foda. Foda demais.
Se vai ao show, assista e culpe-se instantaneamente se em algum momento você achou que esse dinheiro foi mal gasto. Mesmo que seja o pior show da vida dele, você pagou para ver o pior show da vida de um dos maiores gênios da história da música. É como ver o pior quadro do Vermeer, ou visitar o pior prédio de Frank Lloyd Wright. É história. É mitologia. É um dos poucos heróis do século que destruiu a idéia de heroísmo.
Se você não vai ao show, veja o filme de Pennebaker como um ato de adoração religiosa, o acender de uma vela no altar dos deuses do rock. O filme é exatamente isso. Veja como Dylan e seu violão conectam-se por uma irradiação que foge a nós, simples mortais. Ou como fica tomado por uma assustadora concentração quando escreve à máquina em meio à balbúrdia que toma conta do quarto de hotel. Dylan parece ter saltado no abismo de sua própria existência e, enquanto cai, contempla todo um mundo de emoções vetado aos que não têm uma sensibilidade dessa estatura. É isso que o torna grande.
O que o faz um dos maiores, além de tudo isso, é o fato de que esse contato tão latente com o sagrado não faz de Dylan um nefelibata que paira à margem da vida e dos homens. Atitude e respeito para com seus princípios fazem parte de seu vocabulário mais imediato. Basta ver sua postura em relação às perguntas insossas e toscas dos jornalistas desprovidos de lobo frontal na coletiva de imprensa, ou ao repórter almofadinha da Time, ou ainda ao rapaz incrivelmente mala que vai provocá-lo no camarim. E, em contraste, à atenção que dispensa ao repórter bem-informado que vai discutir África. Dylan não é fake, não faz tipo. Dylan faz música – e faz como pouquíssimos.
Seu violão, sua gaita e sua voz deram corpo a alguns dos mais belos versos jamais escritos. Um dia seu corpo morrerá e sua alma irá encontrar-se com Johnny Cash e Jimi Hendrix na nuvem com os melhores amplificadores do céu. Sorte que seus discos perdurarão para sempre, nos roubando sorrisos e lágrimas e dando em troca algum sentido em nossas existências.
(Foto: Reprodução/allimages.com)
