Lampejo de anoitecer de sexta-feira
Abril 11, 2008
Um dos grandes (re)lançamentos recentes é a edição de aniversário de Thriller, a obra-prima de Michael Jackson. É de 1982, tempo em que Michael era um artista, e não essa coisa, digamos, ambígua e polimórfica que se tornou. E querem saber? Era um artista e tanto. De repente um link mandado por um amigo leva o colunista até essa preciosidade aqui:
E eis que, imediatamente, o colunista berra, a plenos pulmões: “MEU REINO POR UM MEGADRIVE!”
Ah, que nostalgia do Moonwalker:
Lembram? Isso, queridos leitores, ISSO É ANOS NOVENTA!
(Esse post contou com a colaboração de Gustavo Veiga)
Sem falar no Calabouço, Flamengo, Botafogo
Março 14, 2008
Amanhã se completam dez anos sem o nosso rei do soul. Tim Maia deixou um legado de canções que vão da mais pura fossa a um balanço suingado que rivaliza com outro mestre das pistas, Jorge Bem (que, aliás, prestou uma deliciosa homenagem ao “síndico” em W/Brasil). Sem falar na fase Racional, que rendeu dois discos que passaram décadas na condição de raridades cult e viraram verdadeira mania, obrigatórios nas discotecagens dos últimos anos. A verdade é que Sebastião Rodrigues Maia era um crooner com muito estilo.
Tão grande quanto a lista de hits memoráveis é o apanhado de lendas que cresceu em torno de Tim. Verdadeiras ou não – algumas das principais fontes não primam exatamente por um rigor histórico apurado –, fato é que as historias já perderam sua força individual em nome da mitologia. Beberrão, mulherengo, briguento, falastrão; Tim é nada disso e tudo isso ao mesmo tempo. Um personagem de si mesmo. Além de ser dono de um senso de humor e de um carisma (peculiares, é verdade) ímpares.
À frente de um dos conjuntos instrumentais mais infernais da MPB, a insana Banda Vitória Régia, Tim deixou gravações antológicas e inúmeros sucessos que sabemos de cor. Álbuns como Disco Club (1978) e O Descobridor dos Sete Mares (1983) são verdadeiros monumentos do que há de melhor em música dançante. E nesses dez anos de ausência não apareceu ninguém que pudesse sequer engraxar seus sapatos, quando mais botar tanta gente pra dançar como ele fez.
Afinal, quem não dança, segura a criança.
(Foto: Reprodução/netbureau.com.br)
You can’t do that on videoclips anymore
Fevereiro 26, 2008
Muitos o amam, outros tantos o odeiam. Difícil mesmo é achar alguém indiferente a um dos criadores mais insanos da história do rock. Rock, jazz, clássico e qualquer coisa vagamente musical (ou ao menos para ele) – tudo cabia no som de Frank Vincent Zappa.
Álbuns como Uncle Meat (1969, trilha sonora do filme homônimo), One Size Fits All (1975) e Jazz From Hell (1986) são e sempre serão sinônimo de modernidade e ousadia.
Nunca é demais rever You Are What You Is, uma bela amostra do que podia sair da cabeça do bigodudo. Um dos maiores clipes de todos os tempos, sem a menor sombra de dúvida.
“Ah, aquele da abelhinha!” ou O breve vôo do Blind Melon
Fevereiro 21, 2008
Senhoras e senhores, que rufem as trombetas! O colunista tem o prazer de dar início a uma nova seção: One Hit Wonders. Com doses cavalares de nostalgia correndo pelas veias, é um espaço dedicado às bandas e artistas que ficaram para a história com apenas um hit. Mas são aqueles hits que, sabe-se lá como, muitas vezes conhecemos de cor. Enfim, que se abra o baú…
Para tanto, voltemos um pouco no tempo. Los Angeles, 1990. Enquanto gente como Nirvana e Mudhoney bombavam decibéis nas rádios, o cantor Shannon Hoon, natural de Lafayette, Indiana, juntava-se a outros quatro músicos magrelos e cabeludos para fazer shows em bares da cidade. Nascia ali o Blind Melon.
Após alguma repercussão local, a banda assinaria um contrato com a Capitol para o lançamento do primeiro disco, Blind Melon, que sairia em setembro de 1992. Um pouco antes, porém, um conterrâneo e velho amigo de Hoon o chama para participar de algumas músicas do álbum novo de sua banda. Nada de mais, se esse amigo não fosse Axl Rose, se a banda não fosse o Guns ‘N’ Roses e se o disco não fosse o Use Your Ilusion.
O flerte com o Guns trouxe os holofotes para o Blind Melon. O estouro nas paradas, porém, viria em 1993, com o single No Rain. A canção tocou exaustivamente pelo mundo afora, e a banda chegou a fazer shows de abertura nas turnês de Lenny Kravitz e Neil Young. Em 1994, duas indicações para o Grammy e uma participação no controverso festival Woodstock II.
Nem tudo, porém, eram flores. Hoon já tinha um longo e complicado histórico com drogas. O segundo disco, Soup, veio em setembro de 1995. Mas não houve tempo para nada. Hoon foi encontrado morto no dia 21 de outubro, vítima de overdose de cocaína. Era o fim. Em 1996 ainda sairia o álbum póstumo Nico (nome da filha de Hoon, que contava apenas 3 meses quando da morte do pai), com algum material inédito, demos e sobras de estúdio descartadas dos outros discos.
Os outros integrantes ressuscitaram a banda no ano passado, com novo vocalista, mas tudo leva a crer que é mais uma daquelas aventuras mediúnicas caça-níqueis. O público vai mesmo é para ouvir No Rain, de fato uma baita canção. E o clipe? Mais anos 90, impossível.
Bob Dylan é meu pastor e nada me faltará
Fevereiro 12, 2008
Pois é, caros leitores. Como os roteiristas não saem da greve, este colunista vai arrogar para si a tarefa de distribuir alguns Oscar. O primeiro é o Oscar de Tacanhice Mental de Cabeças Supostamente Pensantes do Show Business Nacional. E a Academia foi unânime em outorgar o prêmio para o gênio que resolveu fazer o show do Bob Dylan no Via Funchal. Sem pista, só com mesas. Com preços que vão de “Ultrajante” (R$ 250, por um lugar no fundo, na lateral) a “Crime Inafiançável” (R$ 900. Isso mesmo. No-ve-cen-tos).
A título de comparação, o show do Rio será no Rioarena (um dos projetos faraônicos do Pan que consumiram um polpudo montante dos cofres públicos), e sai por entre R$ 150 e 360. E em Buenos Aires? Alguém com um mínimo de sensibilidade para enxergar o óbvio marcou o show para o José Amalfitani – o popular El Fortín de Liniers–, estádio do Vélez Sarsfield. Estádio. Os ingressos, assim, saem por entre R$ 41 (não, não falta nenhum zero) e 210.
Para vê-lo aqui, em suma, só sendo podre de rico, trouxa ou fanático. Como ninguém que se disponha a ir a um show do mestre pode ser chamado de trouxa, é em nome desse fanatismo que ainda assim nos dispomos a correr o risco de dar entrada no HC com uma overdose de miojo simplesmente para vê-lo ao vivo. Afinal, é o Bob Dylan.
Este colunista pode ser chamado de podre por diversos motivos – nenhum deles relacionado ao dinheiro sob o colchão. A perspectiva do estilo de vida espartano dos próximos meses não impede, porém, que seus olhos brilhem ao contemplar o ingresso. Muito menos segura as lágrimas ao assistir às imagens reunidas no filme Don’t Look Back, de D.A. Pennebaker.
Lançado pela Sony BMG no finalzinho do ano passado, o filme acompanha a segunda turnê de Dylan pela Inglaterra, em 1965. Época em que as galáxias estavam alinhadas de tal forma que a Inglaterra era o centro do universo. Em uma palavra? Tirem as crianças da sala: é foda. Foda demais.
Se vai ao show, assista e culpe-se instantaneamente se em algum momento você achou que esse dinheiro foi mal gasto. Mesmo que seja o pior show da vida dele, você pagou para ver o pior show da vida de um dos maiores gênios da história da música. É como ver o pior quadro do Vermeer, ou visitar o pior prédio de Frank Lloyd Wright. É história. É mitologia. É um dos poucos heróis do século que destruiu a idéia de heroísmo.
Se você não vai ao show, veja o filme de Pennebaker como um ato de adoração religiosa, o acender de uma vela no altar dos deuses do rock. O filme é exatamente isso. Veja como Dylan e seu violão conectam-se por uma irradiação que foge a nós, simples mortais. Ou como fica tomado por uma assustadora concentração quando escreve à máquina em meio à balbúrdia que toma conta do quarto de hotel. Dylan parece ter saltado no abismo de sua própria existência e, enquanto cai, contempla todo um mundo de emoções vetado aos que não têm uma sensibilidade dessa estatura. É isso que o torna grande.
O que o faz um dos maiores, além de tudo isso, é o fato de que esse contato tão latente com o sagrado não faz de Dylan um nefelibata que paira à margem da vida e dos homens. Atitude e respeito para com seus princípios fazem parte de seu vocabulário mais imediato. Basta ver sua postura em relação às perguntas insossas e toscas dos jornalistas desprovidos de lobo frontal na coletiva de imprensa, ou ao repórter almofadinha da Time, ou ainda ao rapaz incrivelmente mala que vai provocá-lo no camarim. E, em contraste, à atenção que dispensa ao repórter bem-informado que vai discutir África. Dylan não é fake, não faz tipo. Dylan faz música – e faz como pouquíssimos.
Seu violão, sua gaita e sua voz deram corpo a alguns dos mais belos versos jamais escritos. Um dia seu corpo morrerá e sua alma irá encontrar-se com Johnny Cash e Jimi Hendrix na nuvem com os melhores amplificadores do céu. Sorte que seus discos perdurarão para sempre, nos roubando sorrisos e lágrimas e dando em troca algum sentido em nossas existências.
(Foto: Reprodução/allimages.com)
Beleza que dói
Janeiro 25, 2008
Há exatos 30 anos a Joy Division fez seu primeiro show com este nome (após abandonar o antigo “Warsaw”, na discoteca Pips, em Manchester. Com a palavra, Deborah Curtis:
“(…) Tocaram o que pareceu muito pouco tempo para um público que finalmente aderira à aura especial da Joy Division. Eu estava sentada no alto das escadas sobre a pista de dança e reparei num fã que correu à frente do palco e apanhou rapidamente uma lista caída dos temas, escrita nos grandes rabiscos de Ian. Achei graça ao facto de alguém querer coleccionar aquilo quando só tinham pago sessenta libras à banda para tocar.” *
Era o início de um vôo intenso e curto – em termos de “vida” da banda. A mitologia acerca da banda, porém, só cresceria com o passar dos anos. A poesia rasgada e doída de Ian Curtis é universal, atemporal, pois toca a essência de qualquer um que tenha um arremedo de coração.
Nossas frustrações são do tamanho dos nossos sonhos. Ou da ausência deles.
* Deborah Curtis, Carícias Distantes. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.
It’s all about fucking
Janeiro 14, 2008
A verdade é que Freud estava certo: é tudo uma questão de sexo. Olhe para essa sociedade doente, míope e superficial que nos circunda (E aqui sem moralismos! A coluna nada tem contra o sexo; aliás, tem tudo a favor) e constate. Há falos por todos os lados. Fama, dinheiro, status, poder – é tudo sobre conseguir mais e mais sexo.
À parte a questão, digamos, técnica – o nível excepcional de seus integrantes e seu carisma magnético –, é possível observar e utilizar o caráter simbólico para explicar porque os Rolling Stones são a maior banda de rock da história. O fato é que os Rolling Stones são essencialmente uma banda que fala sobre sexo, que transpira sexo, que vive pelo sexo.
Deborah Curtis, no livro Carícias Distantes, conta que seu falecido marido Ian Curtis, a alma do Joy Division, dizia que gostava dos Rolling Stones para se aproximar de uma turma de rapazes mais velhos. “Era viril gostar mais dos Rolling Stones do que dos Beatles”, escreve. É exatamente isso.
Ouça December’s Children (and everybody’s), obra-prima lançada em 4 de dezembro de 1965. Sinta como o grupo soa másculo, dos vocais empedernidos de Mick Jagger à bateria marcada e suingada de Charlie Watts (uma verdadeira aula de como um baterista pode soar forte sem precisar – nem de longe – ser performático). Um furacão.
A banda esbanja desfaçatez, em canções poderosas como Talkin’ About You, I’m Free e a clássica Get Off Of My Cloud. Se não apresenta o porte e a segurança que vai atingir nos anos 70, compensa com o ímpeto e a agressividade da juventude. É a época em que o sangue negro escorre sem obstáculo pelas veias dos Stones. Brian Jones está lá, com suas guitarras impertinentes. Fã declarado de Robert Johnson, dividia uma paixão fervorosa pelo blues com o colega e amigo (condição esta que destoava da relação com o resto da banda em seus últimos meses de vida, em 1969) Keith Richards, o que marcou profundamente o som do grupo nessa fase.
E, convenhamos, foi uma semana e tanto para a música. Um dia antes, em 3 de dezembro de 1965, os Beatles lançaram Rubber Soul, o disco que começa a transparecer a mudança de rumos da banda para paragens mais ousadas (basta dizer que o disco anterior é Help!, não exatamente um primor em termos de novidade e consistência, que dirá de genialidade). O terreno começava a ser preparado para Revolver e a grande revolução de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.
A sensibilidade de Deborah Curtis se mostrou muito bem apurada. Enquanto Paul e John cantavam “Baby, you can drive my car”, Jagger não saía por menos de um “I’m free to do what I want any old time” ou “Yeah, I’m moving on / I’m through with you / Too bad you’re blue / I’ll move on”. Sacou a diferença?
Noel, o poeta de Manchester
Dezembro 10, 2007
Esse post dá início à pomposa série Os Versos Mais Geniais da História do Rock. Em destaque, o dito cujo em questão:
Some Might Say
Noel Gallagher
Some might say that sunshine follows thunder
Go and tell it to the man who cannot shine
Some might say that we should never ponder
On our thoughts today cos they will sway over time
Some might say we will find a brighter day
Some might say we will find a brighter day
Cos I’ve been standing at the station
In need of education in the rain
You made no preparation for my reputation once again
The sink is full of fishes
She’s got dirty dishes on the brain
It was overflowing gently but it’s all elementary my friend
Some might say they don’t believe in heaven
Go and tell it to the man who lives in hell
Some might say you get what you’ve been given
If you don’t get yours
I won’t get mine as well
Some might say we will find a brighter day
Some might say we will find a brighter day
Cos I’ve been standing at the station
In need of education in the rain
You made no preparation for my reputation once again
The sink is full of fishes
Cos she’s got dirty dishes on the brain
And my dog’s been itchin’
Itchin’ in the kitchen once again
Some might say
You know what some might say
Essa canção foi o primeiro single do álbum (What’s The Story) Morning Glory?, o segundo do Oasis, lançado em 2 de outubro de 1995. Escrita por Noel Gallagher, foi a primeira música do grupo a atingir o topo das paradas inglesas.
Noel em momento genial. Não acham?
Uma viagem espacial com gosto de bourbon na boca
Dezembro 5, 2007
Eles são perturbados. Doentios. Frenéticos. Paranóicos. Lisérgicos. Chapados. Ninguém normal consegue ouvir um disco inteiro do 13th Floor Elevators e entrar naquilo. Há tanto ácido correndo nas veias daquelas canções que ouvir um álbum como The Psychedelic Sounds Of The 13th Floor Elevators é uma jornada, uma viagem por uma obra errática e de feridas abertas.
Foi no Texas de meados da década de 1960 que os Elevators surgiram. Com uma pegada de riffs diretos, atmosferas delirantes e vocais transtornados, fazem um som que sintetiza a psicodelia ligada às experiências com maconha e LSD e o passado blueseiro dos Rolling Stones, num arco que remete a gente como Bo Didley, Muddy Waters e Howlin’ Wolf.
Rory Erickson, o autor de You’re Gonna Miss Me – lançado por sua banda anterior, o The Spades, em 1965, tornaria-se um grande hit dos Elevators no ano seguinte –, foi chamado pelo “percussionista” Tommy Hall (assista o vídeo e entenda as aspas) para assumir os vocais do grupo. Era o frontman perfeito, e logo a banda estaria embalando os porres dos garotos que eram enviados para morrer nas selvas do Vietnã, Laos e Camboja.
As drogas são elemento fundamental na compreensão do rock’n roll do 13th Floor Elevators, não só do ponto de vista sonoro: Erickson seria preso seguidas vezes por porte e acabaria internado num hospital do governo para reabilitação, ainda antes do fim da década. Reabilitado, porém, é o que ele menos foi. Logo viraria um mito – em menor escala, evidentemente – na linha de um Syd Barrett.
The Psychedelic Sounds Of The 13th Floor Elevators pode ser visto como o casamento dos vôos apolíneos das trips de ácido com o espírito dionisíaco pé-no-chão e dolorosamente humano do blues. As melodias suingadas da guitarra de Stacy Sutherland, não raro num flerte aberto com a surf music, são o fiel dessa balança.
A definição nietzscheana encontrada em O Nascimento da Tragédia define muito bem esse jogo de contrastes intrinsecamente ligados que, com o sabor de velhos amplificadores valvulados Marshall, pinta todas as cores dos Elevators:
“(…) A seus dois deuses da arte, Apolo e Dionísio, vincula-se a nossa cognição de que no mundo helênico existe uma enorme contraposição, quanto a origens e objetivos, entre a arte do figurador plástico, a apolínea, e a arte não-figurada da música, a de Dionísio: ambos os impulsos, tão diversos, caminham lado a lado, na maioria das vezes em discórdia aberta e incitando-se mutuamente a produções sempre novas, para perpetuar nelas a luta daquela contraposição sobre a qual a palavra comum ‘arte’ lançava apenas aparentemente a ponte; até que, por fim, através de um miraculoso ato metafísico da ‘vontade’ helênica, apareceram emparelhados um com o outro, e nesse emparelhamento tanto a obra de arte dionisíaca quanto a apolínea geraram a tragédia ática. (…)”
Entre na onda dos caras. A viagem vale a pena.
(Foto: Reprodução)
Pedra que rola não cria limbo
Novembro 26, 2007
(O post de hoje é auto-suficiente)
Isso é rock’n roll.

