Bob Dylan é meu pastor e nada me faltará
Fevereiro 12, 2008
Pois é, caros leitores. Como os roteiristas não saem da greve, este colunista vai arrogar para si a tarefa de distribuir alguns Oscar. O primeiro é o Oscar de Tacanhice Mental de Cabeças Supostamente Pensantes do Show Business Nacional. E a Academia foi unânime em outorgar o prêmio para o gênio que resolveu fazer o show do Bob Dylan no Via Funchal. Sem pista, só com mesas. Com preços que vão de “Ultrajante” (R$ 250, por um lugar no fundo, na lateral) a “Crime Inafiançável” (R$ 900. Isso mesmo. No-ve-cen-tos).
A título de comparação, o show do Rio será no Rioarena (um dos projetos faraônicos do Pan que consumiram um polpudo montante dos cofres públicos), e sai por entre R$ 150 e 360. E em Buenos Aires? Alguém com um mínimo de sensibilidade para enxergar o óbvio marcou o show para o José Amalfitani – o popular El Fortín de Liniers–, estádio do Vélez Sarsfield. Estádio. Os ingressos, assim, saem por entre R$ 41 (não, não falta nenhum zero) e 210.
Para vê-lo aqui, em suma, só sendo podre de rico, trouxa ou fanático. Como ninguém que se disponha a ir a um show do mestre pode ser chamado de trouxa, é em nome desse fanatismo que ainda assim nos dispomos a correr o risco de dar entrada no HC com uma overdose de miojo simplesmente para vê-lo ao vivo. Afinal, é o Bob Dylan.
Este colunista pode ser chamado de podre por diversos motivos – nenhum deles relacionado ao dinheiro sob o colchão. A perspectiva do estilo de vida espartano dos próximos meses não impede, porém, que seus olhos brilhem ao contemplar o ingresso. Muito menos segura as lágrimas ao assistir às imagens reunidas no filme Don’t Look Back, de D.A. Pennebaker.
Lançado pela Sony BMG no finalzinho do ano passado, o filme acompanha a segunda turnê de Dylan pela Inglaterra, em 1965. Época em que as galáxias estavam alinhadas de tal forma que a Inglaterra era o centro do universo. Em uma palavra? Tirem as crianças da sala: é foda. Foda demais.
Se vai ao show, assista e culpe-se instantaneamente se em algum momento você achou que esse dinheiro foi mal gasto. Mesmo que seja o pior show da vida dele, você pagou para ver o pior show da vida de um dos maiores gênios da história da música. É como ver o pior quadro do Vermeer, ou visitar o pior prédio de Frank Lloyd Wright. É história. É mitologia. É um dos poucos heróis do século que destruiu a idéia de heroísmo.
Se você não vai ao show, veja o filme de Pennebaker como um ato de adoração religiosa, o acender de uma vela no altar dos deuses do rock. O filme é exatamente isso. Veja como Dylan e seu violão conectam-se por uma irradiação que foge a nós, simples mortais. Ou como fica tomado por uma assustadora concentração quando escreve à máquina em meio à balbúrdia que toma conta do quarto de hotel. Dylan parece ter saltado no abismo de sua própria existência e, enquanto cai, contempla todo um mundo de emoções vetado aos que não têm uma sensibilidade dessa estatura. É isso que o torna grande.
O que o faz um dos maiores, além de tudo isso, é o fato de que esse contato tão latente com o sagrado não faz de Dylan um nefelibata que paira à margem da vida e dos homens. Atitude e respeito para com seus princípios fazem parte de seu vocabulário mais imediato. Basta ver sua postura em relação às perguntas insossas e toscas dos jornalistas desprovidos de lobo frontal na coletiva de imprensa, ou ao repórter almofadinha da Time, ou ainda ao rapaz incrivelmente mala que vai provocá-lo no camarim. E, em contraste, à atenção que dispensa ao repórter bem-informado que vai discutir África. Dylan não é fake, não faz tipo. Dylan faz música – e faz como pouquíssimos.
Seu violão, sua gaita e sua voz deram corpo a alguns dos mais belos versos jamais escritos. Um dia seu corpo morrerá e sua alma irá encontrar-se com Johnny Cash e Jimi Hendrix na nuvem com os melhores amplificadores do céu. Sorte que seus discos perdurarão para sempre, nos roubando sorrisos e lágrimas e dando em troca algum sentido em nossas existências.
(Foto: Reprodução/allimages.com)
O No Wave e os porões novaiorquinos
Novembro 2, 2007
Nova York faz parte de um seleto grupo de cidades, como Londres e Paris, em que o ar parece ter algo de elétrico. Uma caminhada (ou um olhar sobre o noticiário cultural) basta para se ter a sensação de que tudo está acontecendo ali, naquele instante. E as coisas realmente estão acontecendo.
O documentário Kill Your Idols, do diretor Scott Crary, registra o surgimento e a ascensão do No Wave, no final dos anos 1970. Havia algo de revolucionário naqueles porões esfumaçados da Big Apple. O CBGB & OMFUG, na esteira do Max’s Kansas City, começara a abrir o caminho já há algum tempo. 1977 foi um ano mítico, com mais de uma dezena de discos fundamentais da história do rock. Era natural que aquilo tudo explodisse.
Uma narração clara se apóia em depoimentos de praticamente todos os personagens importantes e em preciosos registros de apresentações. Desde o início, com Suicide, Teenage Jesus and The Jerks e DNA, passando por Sonic Youth e Swan e desembocando em Yeah Yeah Yeahs, Liars e Gogol Bordello.
Assistindo ao documentário, só nos resta imaginar como deve ter sido fantástico morar em Manhattan nessa época e poder ver esses shows no club da esquina de casa. Isso sem contar os shows de Ramones, Iggy Pop, Blondie e Talking Heads, as exposições de Andy Warhol, Pierre Boulez e Zubin Mehta à frente da Filarmônica e Spike Lee filmando pelo Brooklyn.
Pode-se encomendar o DVD nas grandes lojas gringas do ramo. Também não é difícil encontrar um link para baixá-lo; dependendo de sua posição filosófica sobre a pirataria, pode ser um caminho mais rápido.
