"Meu nome é Tony eu construí um instrumento!"
Janeiro 18, 2008
Ler este post não vai fazer a menor diferença na sua vida. Ainda que você não seja obtuso o suficiente para clicar no link do My Space e tentar entender por ali o que estou falando, o lance é que vou lhe dar um bom motivo para que me demitissem, se isso fosse um emprego e eu não fosse meu “chefe”.
Simplesmente não é possível colocar em palavras a experiência da noite de ontem, num Milo razoavelmente lotado (e com a habitual competência e elegância sonora do Centro Cultural Batidão). Era Tony da Gatorra, com um show para – por mais paradoxal que isso passe a soar ao longo do texto – dar um chute no traseiro na mesmice de indiezinhos que se reproduzem à exaustão e bandinhas cariocas metidas a engraçadinhas.
Nada te prepara para ele; e olha que te falam um bocado. “É pós-punk”, diz alguém. “O Daniel Johnston brasileiro”, fabulam. E de repente um senhor com ares de hippie véio, de longos cabelos grisalhos, muito lisos, que até então estava distribuindo sorrisos entre fascinados interlocutores, quase nenhum com mais de trinta anos, se dirige ao palco improvisado, rés-do-chão, e começa a colocar roupas e apetrechos. Colares são distribuídos (há dois músicos o assessorando), roupas coloridas. Um ar “hippie-kitsch” (diria Vânia Goy) domina a cena.
A platéia distribui-se em sucessivos círculos concêntricos. Nos da frente, o que parece ser uma legião de fãs fiéis. Devotados, aparvalhados, fundamentalistas e irracionais como só os verdadeiros fanáticos por algo ou alguém podem ser. E há moleques fantasiados, barbudos ensimesmados, garotas magrelas vestidas de preto, tiozões com pinta de ex-hippies hoje aburguesados. É tão democrático que chega a ser ademocrático – é a negação da democracia. É a negação de qualquer forma de poder, hierarquia ou gestão por instância superior. É a exaltação plena da idéia de liberdade.
Tony tira seu sustento do conserto de aparelhos eletrônicos em Esteio, “a Osasco de Porto Alegre”. Envolvido com as bandas locais desde a década de 60, queria ser músico e botar pra fora o que passava por sua cabeça – e coração. E o que ele fez? Criou um instrumento: a gatorra. Aqui também me declaro incapaz de descrevê-lo. Pare de tentar se convencer de que essas bandinhas que se revezam entre as boates da cidade têm alguma importância e vá ver o Tony. Esse é um cara que vai fazer algum sentido.
Tony é pós-punk. É o Daniel Johnston brasileiro. É o creme resultante de Raul Seixas, Alan Vega, Arthur Lee, Sonic Youth e DNA batidos num liquidificador. É um Messias da não-música. Um Antônio Conselheiro. Um xamã, um chefe Apache. E também não é nada disso. Não vem de lugar nenhum, nem aponta tendências. É um ponto fora da curva. Um negativo de uma canção rodada ao contrário. Um anti-artista.
É como as pinturas de Magritte. Pense em O Império das Luzes, pense em Dois Mistérios – essa é a música de Tony da Gatorra. Uma poesia que se ancora em outras referências. O cerne de sua música não é a tradição. Sua essência se conecta com a ancestralidade. É essa a beleza que não está ao alcance da (muitas vezes aparentemente inexistente) sensibilidade dos sete ou oito idiotas de plantão que estão lá para rir e fazer chacota. Deus está nos detalhes, e idiotas não são capazes de apreender detalhes.
Se a idéia de ser “importante” não estivesse tão distante dos anseios de Tony ele talvez concordasse quando digo que ele é um profeta do óbvio. Em um mundo míope, só a pureza absoluta de propósitos é capaz de nos mostrar o que está a um palmo de nosso nariz. E, afinal, é o que está imediatamente à frente que nos faz tropeçar. Ele funciona como um catador de pedrinhas a mostrar um caminho menos doloroso para nossos pés.
Em última instância, o que unia um grupo tão heterogêneo numa noite chuviscosa de quinta-feira era a condição humana inerente a todos ali. E é justamente sobre isso que Tony está falando. Amor, paz, vida, luz. Seus signos não são novos para ninguém. O que importa não é o que ele diz, mas como ele diz.
Vá a um show de Tony e enxergue a beleza que está na crueza daquilo tudo. Veja como as gatorras parecem cintilar como os peixinhos dourados de Aureliano Buendía. Seus discos vão fazer outro sentido.
(ps: lamento profundamente não ter feito fotos no show de ontem. Se alguém tiver e se dispuser a cedê-las, ficarei extremamente agradecido)
Janeiro 18, 2008 at 5:46 pm
eu tenho vááárias fotos do Ton, fío.
Janeiro 18, 2008 at 8:34 pm
manda, please!
Janeiro 26, 2008 at 4:14 pm
Bixo! Melhor texto que eu ja li sobre o Tony na minha vida. R.E.S.P.E.C.T.
Janeiro 26, 2008 at 7:57 pm
valeu!!!