Memória de uma inundação
Novembro 8, 2007
Inglaterra, 1987. A música eletrônica chegara em peso para ferver os clubs, e o rock sofria os efeitos desse impacto. Seis anos antes, estreara nos Estados Unidos a MTV, revolucionando os modos de a difusão (e conseqüentemente de produção) da indústria fonográfica. As rádios tocavam The Cure, Echo & The Bunnymen, Bauhaus… Algo de importante estava acontecendo.
Naquele ano a gravadora Elektra lançou Floodland, segundo álbum (e, com o tempo, seu campeão de vendas) dos Sisters of Mercy. São dez canções, começando com o díptico Dominion/Mother Russia. Na época, a simples audição dessa faixa já foi suficiente para que muitos dos fãs da banda percebessem que havia algo de diferente no som dos Sisters. Isso, porém, não foi nenhuma surpresa.
Nos meses que antecederam as gravações, três dos quatro integrantes da banda saíram: os guitarristas Gary Mark e Wayne Hussey e o baixista Craig Adams. Restou o vocalista e mentor Andrew Eldritch, que tocou o projeto daí pra frente (após várias brigas na Justiça). Para este disco, juntou-se a ele a baixista Patricia Morrison. A bateria já estava a cargo de Doktor Avalanche – uma mala. Literalmente: era uma bateria eletrônica, carregada em uma pesada maleta.
As músicas de Floodland não apresentam a inquietude do álbum anterior, First And Last And Always, de 1985. Soa menos dançante, e mais místico, fluido. A capa do disco parece apontar um caminho para a compreensão do som da banda naquele momento. Estão nele alguns dos clássicos dos Sisters, como Lucretia My Reflection, 1959 e Flood I e II.
A pièce de résistence é This Corrosion, que chegou ao topo das paradas americanas. Após uma eletrizante abertura cantada pela New York Choral Society, Eldritch empresta seus vocais rasgados para uma das mais ferinas criações dos Sisters. Em certa medida, esta música prenuncia o caminho que a banda tomaria cinco anos depois ao regravar Temple of Love com a cantora árabe Ofra Haza.
Ao quebrar os parâmetros do disco anterior, os Sisters apontam em Floodland o projeto que vão levar à maturidade sonora do álbum que aparece três anos depois, Vision Thing. Verdadeiro documento histórico.